Por detrás de cada uma das 216 candidaturas recebidas na primeira edição do Prémio Fidelidade Ímpar Comunidade, em Moçambique, há uma história de proximidade às comunidades e de resposta a problemas sociais concretos. Entre os projetos apresentados encontravam- se iniciativas de combate à desnutrição infantil, ações de promoção da saúde, programas de inclusão de pessoas com deficiência e projetos dirigidos a mulheres, jovens e outras populações em situação de vulnerabilidade.
No seu conjunto, estas candidaturas revelam não apenas a dimensão dos desafios sociais que Moçambique continua a enfrentar, mas também a vitalidade de uma sociedade civil que trabalha diariamente no terreno para encontrar soluções. Mais do que identificar projetos merecedores de apoio financeiro, a primeira edição do prémio permitiu conhecer melhor o trabalho desenvolvido por centenas de organizações espalhadas pelo país.
OS IMPACTOS SERÃO REAIS E CONCRETOS. AS ASSOCIAÇÕES VENCEDORAS VÃO CHEGAR A MAIS PESSOAS, PESSOAS QUE DE OUTRA FORMA FICARIAM SEM APOIO.
Grandes desafios
Como explica Silénia Valoi, responsável pela iniciativa, “a diversidade das mais de 216 candidaturas revelou não só a riqueza do tecido associativo moçambicano, mas também a dimensão dos desafios que continuam a afetar as nossas comunidades”. As propostas recebidas vieram de diferentes regiões do país, mas muitas convergiam nos mesmos problemas: o acesso à saúde, a prevenção de doenças transmissíveis, a saúde sexual e reprodutiva, a nutrição infantil, a inclusão social de pessoas com deficiência e o apoio a mulheres, jovens e populações em situação de vulnerabilidade surgiram entre as preocupações mais frequentes dos projetos apresentados.
Por outro lado, uma das principais conclusões desta primeira edição foi a constatação de que existe uma vasta rede de organizações profundamente conhecedoras da realidade local. “Muitas organizações apresentaram soluções concebidas a partir do contacto diário com as comunidades. Existe uma sociedade civil ativa, que conhece os problemas no terreno e sabe como responder. Apoiá-la é um dos investimentos mais importantes que podemos fazer”, afirma Silénia Valoi.
Idosos como parte da solução
Entre as mais de duas centenas de candidaturas, duas iniciativas (ver caixas) acabaram por se destacar pela capacidade de gerar mudanças concretas na vida das pessoas. Na categoria de Inclusão Social de Pessoas com Deficiência ou Incapacidade foi distinguido o projeto NutiFamily+, desenvolvido pela Associação Nutrição em Desenvolvimento (ANDMoz). O projeto procura combater a desnutrição infantil e a insegurança alimentar, mas distingue-se por envolver pessoas com deficiência e idosos na produção alimentar das próprias comunidades, transformando- os em agentes ativos da solução.
Como explica Silénia Valoi, responsável pelo prémio, “este projeto apresentou uma abordagem integrada para combater a desnutrição infantil e a insegurança alimentar, promovendo simultaneamente a inclusão produtiva de pessoas com deficiência e idosos”. Para a responsável, o principal mérito da iniciativa está precisamente na forma como encara a inclusão. “Incluir pessoas com deficiência eidosos como agentes ativos da solução, e não apenas como beneficiários, é algo que nos toca. Cuidar de quem cuida dos outros é, para nós, uma forma de estar”, afirma.
Ajudar as jovens
O segundo projeto vencedor centra-se numa realidade muitas vezes invisível, mas com impacto muito direto na vida de muitas raparigas moçambicanas. Desenvolvido pela Associação Missão Moçambique (MiMo), em parceria com a Be Girl, o projeto promove o acesso à higiene e à saúde menstrual entre jovens em situação de vulnerabilidade, procurando reduzir o absentismo escolar e combater os obstáculos que continuam a limitar a sua permanência na escola.
Para Silénia Valoi, o impacto desta intervenção ultrapassa largamente a dimensão da saúde. “Uma rapariga que fica em casa porque não tem o que precisa é uma vida que para. E isso não podemos aceitar”, afirma. Através de ações de sensibilização e educação para a saúde menstrual, complementadas pela distribuição de mil kits menstruais reutilizáveis, a iniciativa pretende melhorar o bem-estar, a autoestima e as oportunidades de futuro das beneficiárias, criando condições para que mais jovens possam continuar a frequentar a escola e desenvolver o seu potencial.
Dimensão do trabalho social
Se os projetos vencedores impressionaram pela qualidade das soluções apresentadas, as visitas realizadas durante o processo de avaliação permitiram tornar evidente e emocionante algo igualmente relevante: a dimensão do trabalho desenvolvido por muitas organizações sociais em todo o país. Como recorda a responsável pelo prémio: “Uma das maiores lições desta primeira edição foi perceber a dimensão do trabalho silencioso que muitas organizações realizam diariamente,muitas organizações realizam diariamente, frequentemente com recursos muito limitados, mas com uma dedicação que impressiona”. Durante essas visitas, a equipa encontrou associações que transformaram pequenos espaços em centros de apoio comunitário, voluntários que percorrem quilómetros para acompanhar beneficiários e líderes locais que dedicam grande parte do seu tempo à resolução de problemas coletivos. “Por detrás de cada proposta há pessoas genuinamente empenhadas em melhorar a vida dos outros. Reconhecer isso — e apoiá-las — é o que dá sentido a esta iniciativa”, resume Silénia Valoi.
Muito além dos 20 mil euros de prémio
Refira-se que o apoio financeiro atribuído aos vencedores — 1,5 milhões de meticais, cerca de 20 mil euros — constitui apenas uma parte do impacto que a organização do prémio espera gerar. Para a Fidelidade Ímpar, o reconhecimento dado pela iniciativa pode também ajudar estas entidades a ganhar maior visibilidade, reforçar a sua credibilidade e abrir portas a novas parcerias e fontes de financiamento. Conforme sublinha Silénia Valoi: “O apoio financeiro é importante, mas o valor deste prémio vai muito além disso”, defendendo que iniciativas deste género podem contribuir para fortalecer o setor social moçambicano e incentivar uma cultura de mérito, partilha de conhecimento e valorização das boas práticas.
Sucesso impulsiona crescimento
O sucesso da primeira edição levou já a Fidelidade Ímpar a pensar nos próximos passos. Para Vítor Bandeira, CEO da seguradora, os resultados alcançados demonstram que a iniciativa responde a uma necessidade real: “Os impactos serão reais e concretos. As associações vencedoras vão chegar a mais pessoas, pessoas que de outra forma ficariam sem apoio”. O responsável acredita que este é apenas o início de um caminho mais longo. “Queremos aumentar o prémio a atribuir e, com isso, também o número de entidades a apoiar”, garante.
Num país onde os desafios sociais vão continuar a ser muito grandes, a primeira edição do Prémio Fidelidade Ímpar Comunidade mostrou que existem centenas de organizações preparadas para fazer a diferença.
Projeto para a Saúde Menstrual das Raparigas
Todos os meses, milhares de raparigas moçambicanas enfrentam um obstáculo invisível que continua a comprometer o seu percurso escolar. A falta de acesso a produtos menstruais adequados, associada à escassez de informação e aos tabus que ainda rodeiam a menstruação, faz com que muitas faltem às aulas e enfrentem um maior risco de abandono escolar. Foi para responder a esta realidade que a Associação Missão Moçambique (MiMo), em parceria com a Be Girl, criou o projeto Empoderamento das Raparigas em Situação de Vulnerabilidade através da Promoção e Acesso à Higiene e Saúde Menstrual, vencedor do Prémio Fidelidade Ímpar Comunidade na categoria de Prevenção em Saúde. A iniciativa será desenvolvida durante seis meses no distrito municipal de Katembe, em Maputo, e pretende apoiar diretamente mil raparigas entre os 12 e os 18 anos. Em paralelo, serão distribuídos mil kits menstruais reutilizáveis, concebidos para garantir proteção durante pelo menos dois anos.
Combater a fome dando autonomia às famílias
Na província da Zambézia, uma das mais vulneráveis de Moçambique, a desnutrição infantil e a insegurança alimentar continuam a marcar o quotidiano de muitas famílias. As crises climáticas recorrentes dificultam a produção agrícola e agravam a escassez de alimentos, enquanto pessoas com deficiência e idosos permanecem frequentemente afastados das atividades produtivas e dependentes de apoio externo. Foi para responder a esta realidade que nasceu o NutiFamily+, projeto vencedor do Prémio Fidelidade Ímpar Comunidade na categoria de Inclusão Social de Pessoas com Deficiência ou Incapacidade. Promovida pela Associação Nutrição em Desenvolvimento (ANDMoz), a iniciativa pretende apoiar diretamente 200 famílias vulneráveis da Zambézia ao longo de um ano, beneficiando mais de mil pessoas, entre as quais cerca de 500 crianças e 60 pessoas com deficiência e idosos.
Para mais informações, visite premio.fidelidadecomunidade.pt.